Nota de Repúdio sobre a chacina da Penha e do Alemão
“A carne mais barata do mercado é carne negra…
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego”
Ao iniciarmos nossa manifestação com os versos da canção “A carne”, de autoria de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti, consagrada na voz de Elza Soares, nós, da comunidade acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEDUC) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro repudiamos veementemente a chacina ocorrida nos complexos da Penha e do Alemão que culminou na morte de 134 pessoas, 130 civis e 4 policiais, no dia 28 de outubro. A megaoperação planejada pelo governo do estado do Rio de Janeiro, na figura de Cláudio Castro, é considerada a operação policial mais letal da história brasileira.
Essa tragédia não foi uma exceção ou um exagero por parte da força armada do estado, mas a condução da necropolítica que vitima em grande parte as populações negras, como constatamos nas fotografias dos corpos expostos em uma das principais vias de acesso ao Complexo da Penha e registrados pelos diversos veículos de comunicação.
Esse projeto de política de segurança pública ineficaz, que não resolve a redução da criminalidade e da violência, que há anos assola o estado do Rio de Janeiro, apresenta como destino aos mais desfavorecidos social e economicamente, a falta de oportunidades educacionais, impedindo o desenvolvimento de diversas crianças e adolescentes quando suas escolas precisam interromper suas atividades pedagógicas em momentos de conflito armado, além da falta de acesso aos serviços de saúde, renda e moradia digna.
Por isso, reiteramos a prevalência do Estado Democrático de Direito, na qual as polícias civis e militares cumpram o seu papel de proteger as cidadãs e os cidadãos, preservem o patrimônio e atuem no combate ao crime organizado por meio de investimentos em inteligência e estratégias que se efetivem em políticas de segurança pública de forma conjunta entre as esferas estaduais e federais.
No entanto, o futuro de uma política efetiva de segurança pública só será possível quando houver em primeiro lugar os direitos humanos enquanto referência condutora de todas as práticas legislativas e nas políticas governamentais. Mesmo diante das atrocidades impetradas pelo genocídio das comunidades da Penha e do Alemão, o PPGEDUC reitera ainda os versos da canção “A carne” na interpretação de Elza Soares: “Mas mesmo assim ainda guardo o direito De algum antepassado da cor Brigar sutilmente por respeito Brigar bravamente por respeito”