Mulheres que transformaram a Matemática: histórias de descobertas, coragem e inspiração
Em sintonia com o tema “Ciência Delas”, da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o Curso de Graduação em Matemática da UFRRJ destaca mulheres que contribuíram para o desenvolvimento da Matemática e abriram caminhos para novas gerações de cientistas.
A Matemática está presente na compreensão dos fenômenos naturais, no desenvolvimento de tecnologias, na exploração espacial, na análise de dados e em inúmeras outras áreas do conhecimento. Ao longo da história, mulheres de diferentes épocas e lugares contribuíram de maneira decisiva para esse desenvolvimento. Muitas delas, porém, precisaram enfrentar preconceitos e barreiras de acesso à educação e à carreira científica para que suas ideias fossem reconhecidas.
Em 2026, a 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) tem como tema nacional “Ciência Delas”. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a programação se articula em torno do tema “Elas fazem ciência na UFRRJ: Trajetórias fluminenses, descobertas e futuros possíveis”, valorizando a participação das mulheres na produção científica e aproximando a Universidade da sociedade.
Como parte de sua participação na Mostra de Cursos de Graduação, o Curso de Matemática da UFRRJ convida o público a conhecer algumas dessas trajetórias. São histórias que mostram que a Matemática é uma construção coletiva, enriquecida por diferentes experiências, perguntas e formas de pensar.
Hipátia de Alexandria: conhecimento em tempos antigos

Hipátia de Alexandria (c. 350–415) foi uma filósofa, professora e estudiosa da Matemática que viveu em Alexandria, no Egito, durante a Antiguidade tardia. Em uma época na qual as oportunidades de formação intelectual para as mulheres eram extremamente restritas, destacou-se pelo ensino e pelo estudo de conhecimentos matemáticos e astronômicos.
Associada à tradição matemática grega, Hipátia tornou-se uma das figuras femininas mais conhecidas da história da ciência. Sua trajetória representa a importância da educação, da investigação racional e da preservação do conhecimento.
Sua história também nos lembra que a participação das mulheres na produção científica não é recente: ela remonta a muitos séculos, ainda que nem sempre tenha recebido o devido reconhecimento.
Sophie Germain: a força de persistir

A matemática francesa Sophie Germain (1776–1831) desenvolveu trabalhos importantes na teoria dos números e no estudo matemático das vibrações de superfícies elásticas.
Em uma sociedade na qual as mulheres enfrentavam grandes obstáculos para acessar instituições de ensino e participar da vida acadêmica, Germain precisou encontrar caminhos alternativos para estudar e dialogar com outros matemáticos. Em parte de sua correspondência, utilizou um pseudônimo masculino para que suas ideias fossem consideradas sem o preconceito associado à sua identidade.
Suas contribuições influenciaram o desenvolvimento de problemas matemáticos que continuaram a mobilizar pesquisadores por gerações. Sua trajetória evidencia que o talento científico pode florescer mesmo em condições adversas — e que a ciência perde oportunidades quando exclui pessoas por razões alheias à qualidade de seu trabalho.
Emmy Noether: uma revolução na Álgebra

Amalie Emmy Noether (1882–1935), matemática alemã, é considerada uma das figuras mais importantes da Álgebra moderna. Suas pesquisas transformaram a maneira como os matemáticos compreendem estruturas algébricas, como anéis e ideais, e influenciaram profundamente diferentes áreas da Matemática.
Noether também estabeleceu uma conexão fundamental entre a Matemática e a Física teórica. O chamado Teorema de Noether relaciona simetrias das leis físicas a leis de conservação, contribuindo para a compreensão de princípios fundamentais da natureza.
Apesar de sua extraordinária capacidade intelectual, enfrentou restrições institucionais por ser mulher e teve dificuldades para obter reconhecimento e condições formais de trabalho. Seu legado demonstra como ideias matemáticas abstratas podem ter consequências profundas na compreensão do mundo físico.
Katherine Johnson: a Matemática que ajudou a levar pessoas ao espaço

Katherine Johnson (1918–2020) foi uma matemática norte-americana cujos cálculos tiveram papel importante nos programas espaciais dos Estados Unidos. Trabalhando na NASA, contribuiu para a análise de trajetórias e para cálculos relacionados a voos espaciais tripulados.
Em uma época marcada pela segregação racial e por barreiras impostas às mulheres, Johnson construiu uma carreira científica notável. Sua capacidade de realizar e verificar cálculos matemáticos ajudou a garantir a precisão de missões espaciais, incluindo as primeiras viagens tripuladas norte-americanas ao espaço.
Sua história ficou conhecida por um público ainda maior com o filme Estrelas Além do Tempo, que retrata o trabalho de mulheres negras na computação e na engenharia aeroespacial.
A trajetória de Johnson revela uma dimensão essencial da Matemática: por trás de grandes conquistas tecnológicas, há raciocínio, modelagem, cálculos rigorosos e pessoas dedicadas a resolver problemas complexos.
Maryam Mirzakhani: novas ideias sobre superfícies e geometria

Maryam Mirzakhani (1977–2017), matemática iraniana e professora da Universidade Stanford, realizou contribuições notáveis à geometria e aos sistemas dinâmicos, áreas que investigam, entre outros assuntos, as propriedades de superfícies e o comportamento de sistemas matemáticos ao longo do tempo.
Em 2014, tornou-se a primeira mulher a receber a Medalha Fields, uma das mais importantes distinções internacionais da Matemática. O prêmio reconheceu suas contribuições para o estudo da geometria de superfícies e de estruturas relacionadas.
Mirzakhani demonstrava especial interesse em explorar problemas por meio de desenhos, intuições geométricas e conexões entre diferentes ideias. Seu trabalho mostra que a pesquisa matemática não se limita a aplicar fórmulas: envolve imaginação, experimentação intelectual, persistência e a busca por relações que ainda não compreendemos.
Sua conquista representou um marco para a visibilidade das mulheres na Matemática mundial e ajudou a inspirar meninas e jovens interessadas na pesquisa científica.
Marília Chaves Peixoto, Maria Laura Mouzinho Leite Lopes e Elza Furtado Gomide: pioneiras da Matemática brasileira
A história da Matemática no Brasil também foi construída por mulheres que abriram caminhos em um ambiente acadêmico no qual a presença feminina era muito reduzida.
Marília Chaves Peixoto (1921–1961) foi uma das pioneiras da pesquisa matemática no país e obteve, em 1948, um dos primeiros doutorados em Matemática conquistados por uma mulher no Brasil. Desenvolveu trabalhos relacionados à análise matemática e à teoria da estabilidade.

Maria Laura Mouzinho Leite Lopes (1917–2013) destacou-se pela pesquisa, pela docência e pela defesa da educação matemática. Doutora em Matemática em 1949, tornou-se uma referência na formação de professores e no desenvolvimento de iniciativas voltadas à melhoria do ensino. Também participou da consolidação de instituições científicas brasileiras e contribuiu para aproximar a Matemática da educação básica.

Elza Furtado Gomide (1925–2013) foi uma importante pesquisadora e professora da Universidade de São Paulo. Seus trabalhos em Matemática e sua atuação na formação de estudantes contribuíram para o fortalecimento da pesquisa matemática no país.

Essas três pesquisadoras pertencem a uma geração pioneira que ajudou a consolidar a presença das mulheres na Matemática universitária brasileira. Suas trajetórias mostram que produzir ciência também significa construir instituições, formar novas gerações e ampliar as oportunidades de acesso ao conhecimento.
E hoje? As mulheres continuam fazendo Matemática
A história não termina com as pioneiras. Atualmente, mulheres atuam em diversas áreas da Matemática, incluindo Álgebra, Análise, Geometria, Equações Diferenciais, Matemática Aplicada, Otimização, Estatística, Computação Científica e Educação Matemática.
No Brasil, pesquisadoras desenvolvem novas teorias, participam de projetos interdisciplinares, orientam estudantes, formam professores e contribuem para o avanço do conhecimento. Suas pesquisas ajudam a enfrentar desafios científicos, tecnológicos, sociais e educacionais.
Reconhecer essas trajetórias não significa apenas homenagear o passado. Significa também refletir sobre as condições necessárias para que meninas e mulheres possam estudar, pesquisar, ensinar e desenvolver plenamente suas capacidades.
A diversidade de pessoas e experiências fortalece a ciência. Quando mais pessoas têm a oportunidade de participar da produção do conhecimento, novas perguntas são formuladas e novas possibilidades de descoberta surgem.
A Matemática também é um futuro possível
A participação do Curso de Graduação em Matemática da UFRRJ na 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é uma oportunidade para aproximar estudantes da educação básica da Universidade e apresentar a Matemática como uma área de conhecimento viva, criativa e em constante transformação.
Ao conhecer as histórias dessas mulheres, queremos mostrar que a Matemática é feita por pessoas reais: pessoas que fazem perguntas, enfrentam dificuldades, elaboram conjecturas, demonstram teoremas e compartilham descobertas.
Que essas trajetórias inspirem novas gerações de meninas e mulheres a reconhecerem seu potencial e a imaginarem seus próprios caminhos na ciência.
Ciência também é lugar de mulher. E a Matemática tem espaço para todas as pessoas dispostas a investigar, criar e descobrir.
Curso de Graduação em Matemática — Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), câmpus Seropédica.