gov.br UFRRJ ACESSIBILIDADE LIBRAS
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Search in posts
Search in pages

LETRAS

Campus Nova Iguaçu

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Search in posts
Search in pages

Da importância de se estudar Amazônia em uma universidade pública da Baixada Fluminense

Postado em 13 de fevereiro de 2026

Por Lucas de Moraes, Mestre em Estudos Literários – UERJ, egresso do curso de Letras – IM/UFRRJ
e Professor Municipal em Belford Roxo de Língua Portuguesa e Redação.

O que vemos de Amazônia na história da literatura e nos museus europeus talvez seja inadequado. Por isso, duas pesquisadoras, a brasileira Camila do Valle (Departamento de Letras / IM – UFRRJ) e a italiana Alessia Di Eugenio (Universidade de Bolonha), se juntaram em 2022 e começaram a discutir o tema da representação da Amazônia.  O resultado dessa conversa que começou em 2022 (https://lingue.unibo.it/it/ricerca/progetti-di-ricerca/progetti-di-ateneo/letterature-e-patrimoni-indigeni-musealizzazione-e-decolonialita) pude acompanhar como pesquisador interessado no tema através das redes sociais. Neste mês de dezembro de 2025, foram duas exposições e um seminário com debates sobre a Amazônia entre as cidades de Módena e Bolonha, com a presença de pesquisadores brasileiros e agentes sociais da Amazônia brasileira. Os eventos foram pensados no âmbito de uma cooperação acadêmica internacional entre dois grupos de pesquisa. O grupo de pesquisa brasileiro está ligado ao CNPQ e sediado na UFRRJ, e é coordenado pela Prof.ª Camila do Valle: “Literatura e Antropologia: curadorias, cartografias e outras formas narrativas”. O outro grupo, italiano, é coordenado pela Prof.ª Alessia Di Eugenio, e dele fazem parte outros pesquisadores italianos, como o renomado pesquisador Roberto Vecchi.

Como a pesquisadora Camila do Valle já fazia parte do grupo de pesquisa “Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia”, este último com mais de 20 anos de trabalho de cartografia social e com pequenos museus unidos a povos e comunidades tradicionais, este projeto foi convidado a participar da construção dos eventos, que tiveram lugar logo após a COP30, nas instituições italianas de Bologna e Modena. As pesquisadoras ganharam um edital europeu chamado Global South e, a partir desse momento, estabelecem cooperação para pensarem eventos que retratassem uma discussão muito importante para a contemporaneidade: qual o papel dos museus europeus nas discussões em relação aos povos anteriormente colonizados? O que a literatura e os museus têm a ver com mudanças climáticas e com justiça ambiental e racial? A perspectiva contemporânea é ouvir os povos que antes eram representados na literatura e nos museus e que hoje tratam de sua própria representação. Algo que o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia já colocava em prática há duas décadas. Como aluno da UFRRJ, pude tomar conhecimento desde a graduação dessa discussão sobre representações na Amazônia e nas instituições que sustentam representações da Amazônia, seja na Literatura, seja nas coleções dos museus. O site do Projeto Nova Cartografia Social sempre fez parte das leituras desse grupo de pesquisa do CNPq de que participei a partir de uma universidade pública localizada na Baixada Fluminense, a UFRRJ: https://novacartografiasocial.com.br/ .

Em minha dissertação de mestrado defendida em 2023, no Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, tive como objeto de pesquisa o livro intitulado A Selva, escrito pelo autor português Ferreira de Castro, que tratava do regime de aviamento nos seringais amazônicos no início do século XX, sob o olhar de uma personagem branca e europeia, que conseguiu escapar e registrar esse relato porque sabia escrever, o que não era a realidade da grande maioria dos trabalhadores que ali eram explorados. Quando vemos hoje um indígena como Ailton Krenak integrar como escritor a Academia Brasileira de Letras, e mais recentemente a primeira mulher negra, Ana Maria Gonçalves, também ocupar este lugar, percebemos que há uma mudança no regime de representação. Aqueles que antes eram representados agora se fazem representar com suas próprias vozes.

Um pouco disso foi o que pude acompanhar através das redes sociais quando vi que, nessa mostra no Museo Civico di Modena, onde se fizeram presentes integrantes de comunidades indígenas e quilombolas, como por exemplo Dona Nice, quilombola e quebradeira de coco babaçu, ocupando lugares com seus pequenos museus que existem dentro de suas comunidades e que foram reproduzidos, ainda que não de forma exata, dentro do museu, durante o período da mostra, que ficará até fim de março de 2026, através de uma curadoria coletiva.

Uma outra mostra ocorreu na cidade vizinha a Modena, Bologna, e foi sobre literatura indígena contemporânea. Tratou da casa editorial Wei, fundada em 2018, em Roraima, que tem como fundadora Sony Ferseck, indígena macuxi, escritora e doutora em Literatura Comparada pela UFF. A editora, que foi a primeira independente em seu estado, publica textos de autores indígenas e de outros autores que abordam questões também indígenas. Essas publicações compuseram a exposição na Biblioteca Amilcar Cabral, inaugurada no dia 9 de dezembro com uma roda de parixara, ritual indígena de povos que vivem na região do estado de Roraima, a que assisti no instagram da biblioteca, onde também ocorreu uma mesa de discussão sobre as representações da Amazônia na literatura, antropologia e nos museus, com presença das indígenas Maria Alice Karapãna falando sobre o museu vivo de seu território, e Altaci Kokama, indígena e professora doutora na UnB apresentando reflexões sobre a língua kokama e sobre os diferentes centros de ciências e saberes Kokama, presentes no estado do Amazonas.

Também aconteceu uma série de mesas de debates sediados na Università di Bologna com a presença de professores de instituições brasileiras e italianas: das brasileiras, além da UFRRJ, UEMA, UEA, UFRR, UnB, entre as italianas, além de Bologna, Università di Milano, Università Roma Tre, Università di Napoli L’Orientale. A mesa de encerramento deste ciclo de eventos que apresentou a Amazônia nas instituições italianas ocorreu no auditório do Palazzo dei Musei, em Modena, e contou com a participação do coordenador do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, o antropólogo Alfredo Wagner, o professor dos temas relacionados a Patrimônio da Universidade de Bolonha, Davide Domenici, o antropólogo pesquisador do Musèe du Quai Branly (Paris), da diretora do Mudec (Museo delle Culture de Milão), Carolina Orsini, e teve como coordenadora a representante do Museo Civico di Modena Francesca Piccinini. A mesa tratou das coleções que ainda apresentam representações coloniais nos museus europeus e das questões contemporâneas e de estratégias de reparação e de outras formas de relação entre os povos representados e os museus. Hoje, uma série de atividades econômicas destroem as florestas e as águas, como mineração e pecuária extensiva, passando pela exploração do petróleo até o desmatamento para dar lugar às áreas de gado e plantio. É necessário refletir também como essas ações predatórias interferem na vida da região e dos povos que nela habitam. Voltemos, então, à reflexão inicial: O que o campo da literatura tem a dizer sobre a Amazônia? Qual é o lugar da Amazônia nos dias de hoje em nossas literaturas e em nossos museus?

Links sobre o evento:

Biblioteca Amilcar Cabral, no Instagram:

https://www.instagram.com/reel/DSDeFmGDKXo/?igsh=MTZ1ZGh1ZG1iMXg0Nw==

Museo Civico di Modena, no Instagram e no Facebook:

https://www.instagram.com/p/DSZV8hyCK8I/?img_index=6&igsh=OGVsZ3A2Nnd1aDhu

https://www.facebook.com/share/r/18HXyXfrPv/

Skip to content