CineOlho: cineclube para enxergar além das telas e ampliar os olhares

(Imagem: Reprodução)

O cineclubismo é uma prática de resistência à indústria do entretenimento e ao consumo de filmes esvaziados de conteúdo, que muitas vezes não oferecem espaço para a reflexão. A experiência com a linguagem do cinema é essencial para pensar sobre a imagem e o som como ferramentas no campo da comunicação e para ampliar o repertório cultural e estético. Assim nasce o CineOlho, o cineclube do curso de jornalismo da UFRRJ

A linguagem do cinema no ambiente universitário se torna um espaço privilegiado de educação não formal e mediação cultural. Ao proporcionar o encontro entre a obra cinematográfica e o espectador, o cineclube estimula o desenvolvimento do pensamento crítico e a capacidade de análise estética, funcionando como uma extensão dialógica da sala de aula. Além da função pedagógica, o cineclube universitário desempenha um papel fundamental na formação de um olhar cinematográfico que vai além do entretenimento passivo. Ao diversificar a curadoria, o projeto permite que a comunidade acadêmica tenha acesso a produções marginais, autorais e de diferentes geografias, o que desnaturaliza a hegemonia da indústria cultural convencional. Pensando nisso, um grupo formado por estudantes e uma professora do curso de jornalismo, criaram o CineOlho, um cineclube em formato de projeto de extensão que reúne filmes, pensamento crítico e análise estética. O projeto visa superar a visão do cinema apenas como entretenimento, tratando-o como agente de conhecimento e formação de consciência política e social. As atividades do projeto de extensão começaram neste semestre com a temática do cinema brasileiro no Oscar.

Nessa primeira rodada de exibições, foram discutidos os filmes “O Agente Secreto” (2025), de Kléber Mendonça Filho; “O Menino e o Mundo” (2014), de Alê Abreu; “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), de Héctor Babenco; e “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles.

O projeto leva o nome de um conceito criado pelo cineasta soviético Dziga Vertov que defende que a câmera possui um olhar superior ao humano e é capaz de captar e revelar a verdade, indo além da ficção e da própria capacidade humana. Para Vertov a arte e a linguagem do cinema tinham esse enorme poder de falar sobre a realidade. Os encontros seguem a metodologia clássica cineclubista que está dividida em três momentos distintos: um momento de contextualização da obra, o diretor e os elementos de linguagem que merecem atenção e apresentação de uma chave de leitura para o filme. Em seguida o grupo se entrega à experiência coletiva de “saborear o cinema” para ao final realizar uma troca de ideias sobre o conteúdo e a forma, os sentidos e os sentimentos que o filme proporcionou estimulando a participação horizontal e democrática. 

No semestre de 2026.1 o projeto realizou quatro encontros para assistir obras cinematográficas brasileiras que já receberam indicações ao Oscar. A intenção foi contribuir para o repertório cultural dos participantes e também refletir sobre o papel das obras nacionais dentro dessa premiação, que possui grande relevância na indústria cultural. “O cinema brasileiro é ótimo sem o Oscar, mas não dá para negar a realidade de que, sim, é uma premiação construída culturalmente na nossa sociedade como a principal premiação do cinema mundial, apesar de ser uma premiação americana. Mesmo assim, quando um filme brasileiro é indicado, ele acaba ocupando esse lugar de maior visibilidade”, comentou o aluno José Roberto de Souza, extensionista do projeto e um dos responsáveis pela construção da proposta desde o início.

Pensar a presença do cinema brasileiro nas grandes premiações mundiais também é pensar o funcionamento do mercado audiovisual e como o investimento na divulgação das produções é vital para entrar na disputa pelos troféus. Para José, os encontros vão “trazer esse olhar mais crítico para pensar os outros lados dessa moeda. Você consegue ver que, ok, as coisas estão melhorando, mas ainda há muita coisa que precisa mudar. Então, ter estudantes conversando sobre o tema já representa uma mudança no olhar para o cinema brasileiro e para a indústria cultural de modo geral”. José Roberto é aluno do 5° período de jornalismo, é um grande cinéfilo e mantém o perfil CINE + na rede Substack dedicado à crítica de filmes e séries. 

O grupo já tem, pelo menos, quatro encontros marcados para o próximo semestre, mas o tema ainda está sendo definido, é uma surpresa. “Vamos divulgar em breve, estamos fazendo a curadoria dos filmes. O que esperamos é manter esse olhar crítico nas próximas edições e essa ideia de alternar os temas a cada período”, completou José Roberto.

A equipe do projeto de extensão CineOlho é composta por José Roberto de Souza, Ana Beatriz Almeida, Maria Júlia Leal Teixeira e tem a coordenação da professora Cecília Figueiredo. Você pode acompanhar os detalhes do projeto e as próximas exibições através do perfil no instagram @cineolhoufrrj.

Texto de Bruno Felix

Postado em 16/06/2026 - 16:56

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