Apresentação
A Zona Oeste da Cidade do Rio e a Baixada Fluminense têm sofrido intensas transformações que, embora diversas, trazem as marcas de processos históricos. Neles estão em jogo conflitos fundiários e territoriais, disputas pelo poder de nomear e definir os usos para essas regiões por meio das políticas públicas, dos projetos de desenvolvimento e dos empreendimentos. Esse complexo de transformações e de conflitos é ainda integrado por formas de resistência coletiva, de reelaboração identitária e de mobilização política dos grupos que se entendem afetados pelos efeitos de tais processos. Nos últimos anos, os investimentos na modernização do porto de Itaguaí; a construção de indústrias siderúrgicas, como previsto para os próximos anos em Itaguaí e Santa Cruz; o polo petroquímico localizado no município de Duque de Caxias; a modernização das estradas que atravessam a região a partir da construção da BR-493/Rodovia Raphael de Almeida Magalhães (popularmente conhecida como Arco Metropolitano), articulando a região onde será construída uma grande refinaria de petróleo no município de Itaboraí; o crescimento significativo do setor de serviços; dentre outros investimentos públicos e privados, evidenciam esse novo cenário das regiões vizinhas à UFRRJ. Esta complexa configuração da região metropolitana do Rio de Janeiro nos convida a pensar o contexto da inserção regional da UFRRJ em um circuito de cidades – incluindo o Rio de Janeiro –, relativizando uma possível dicotomia entre centro e periferia, na medida em que entre os dois polos estão a circular importantes movimentos sociais, saberes e produções, sinalizando a urgência de um programa de Mestrado Acadêmico na área de Letras que estimule investigações acerca da também complexa interface entre linguagem e literatura originada e potencializada em tal quadro sociogeográfico. O Curso de Letras da UFRRJ já oferece, desde 2013, o Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS) para professores de Português de escolas públicas advindos de parte dessas regiões. Diante do resultado positivo desse Programa, que já formou em torno de 146 mestres, surge a necessidade de ampliar as áreas de conhecimento que emergiram ao longo destes nove anos.
A proposta de Mestrado Acadêmico preenche de forma mais abrangente as lacunas de conhecimento constatadas, permitindo reflexões que possam contribuir para o desenvolvimento sociocultural das referidas regiões. Tal preenchimento se aprofunda na medida em que docentes aqui inscritos executam tarefas acadêmicas fortemente ligadas à perspectiva da inclusão social. Conforme registrado em seus currículos, realizam-se, por exemplo, estudos dedicados a observar se livros didáticos mapeiam variações linguísticas; pesquisas sobre música popular; trabalhos de leitura e produção textual em unidades prisionais; análises da formação do leitor diante do avanço tecnológico do século XXI. Como estas e outras iniciativas afins se apresentam ao lado de projetos de pesquisa centrados em debates do campo mais estritamente epistemológico, a proposta ora apresentada conjuga tendências consolidadas e inovações contemporâneas, sendo ambas imprescindíveis para confirmar e atualizar os compromissos da universidade pública com a sociedade que a mantém e justifica. Esse substantivo conjunto de itens sociais e acadêmicos apresenta-se, assim, como o fator distintivo do Programa de Mestrado em tela, concebido a partir de debates e produções científicas sensíveis à diversidade cultural, étnica e de gênero, bem como às políticas públicas dirigidas à ciência. O circuito entre cidades e regiões evidencia fenômenos a partir dos quais as noções de centro e periferia se movimentam e deslocam, o que instaura a necessidade de se conhecerem os discursos e os saberes daí emergidos, para que produção acadêmica e políticas públicas de Estado ganhem em abrangência, teor de representatividade e poder de transformação social.