Curso de extensão “Big Gods: como a religião transformou a cooperação e o conflito” | Prof. Dr. Miécimo Ribeiro (Pós-Doutorando – PPGFil-UFRRJ) & Prof. Dr. Walter Valdevino (PPGFil-UFRRJ) | De 15/08/2025 a 10/11/2025, quinzenalmente, sextas-feiras, 14h30
Curso de extensão
“Big Gods: como a religião transformou a cooperação e o conflito”
Prof. Dr. Miécimo Ribeiro (Pós-Doutorando – PPGFil-UFRRJ) & Prof. Dr. Walter Valdevino (PPGFil-UFRRJ)
Duração: 15 de agosto de 2025 a 10 de outubro de 2025, quinzenalmente
Inscrições (de 04/08/2025 a 14/08/2025):
https://forms.gle/AiqEqUSbutgEXmWN7
Público-alvo interno: 30 vagas, sendo 15 para pessoas dos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia e 15 para todos os alunos da área de Humanas da UFRRJ.
Público-alvo externo: 10 vagas para participantes externos.

Resumo
O objetivo deste curso de extensão é expor e discutir, na íntegra, a obra Big Gods: How Religion Transformed Cooperation and Conflict (2013), do psicólogo social Ara Norenzayan. Nesse livro, Norenzayan apresenta uma tese que tenta dar conta, simultaneamente, de dois aparentes paradoxos: como a cooperação em larga escala surgiu entre indivíduos estranhos entre si e como as religiões pró-sociais com “Grandes Deuses” – seres sobrenaturais, obviamente inexistentes, mas que observam, intervêm e exigem lealdade – se espalharam pelo mundo. A tese é a de que a ascensão de Grandes Deuses impulsionou o surgimento da cooperação entre estranhos que resultou na formação de grandes grupos sociais humanos. O curso será ministrado através da plataforma Google Meet, com cada encontro tendo duração de 60 minutos. Em cada uma das 5 aulas quinzenais do curso, serão discutidos 2 capítulos da obra, conforme o cronograma. O público-alvo são alunos de graduação e de pós-graduação em Filosofia da UFRRJ e de outras universidades e quaisquer pessoas interessadas no tema.
Apresentação do curso
A vigilância social é um mecanismo evolutivamente antigo que serviu de base para o surgimento de uma solução sobrenatural para dar conta do problema da confiança entre indivíduos desconhecidos. Deuses de grandes sociedades frequentemente atuam como vigilantes sobrenaturais. Exemplos incluem o Deus abraâmico que “tudo vê”, o Hórus do Egito antigo, o Viracocha do império Inca, e os espíritos ancestrais adalo do povo Kwaio. A percepção de Deus como um ser semelhante a uma pessoa, com estados mentais humanos (crenças, emoções, intenções), é fundamental para essa vigilância sobrenatural e ocorre devido ao desenvolvimento de capacidades cognitivas específicas de nossa espécie. Deus torna-se uma entidade percebida como estando particularmente interessada em más ações com consequências morais e em uma posição elevada (elevada no sentido mesmo de “acima”). A noção de um Deus punitivo, em vez de um Deus bondoso e perdoador, é, assim, um impedimento mais eficaz para o mau comportamento. A crença na punição divina pode até diminuir a motivação para a punição terrena, pois os crentes sentem que Deus se encarregará dessa tarefa.
A obra Big Gods: How Religion Transformed Cooperation and Conflict (2013), de Ara Norenzayan – professor de psicologia social na Universidade da Colúmbia Britânica e co-diretor do centro de pesquisa da Evolução Humana, Cognição e Cultura (HECC, na sigla em inglês) – apresenta uma tese que tenta dar conta, simultaneamente, de dois aparentes paradoxos: como a cooperação em larga escala surgiu entre indivíduos estranhos entre si e como as religiões pró-sociais com “Grandes Deuses” – seres sobrenaturais, obviamente inexistentes, mas que observam, intervêm e exigem lealdade – se espalharam pelo mundo. A tese é a de que a ascensão de Grandes Deuses impulsionou o surgimento da cooperação entre estranhos que resultou na formação de grandes grupos sociais humanos.
A crença em uma divindade moralmente preocupada serve como um sinal de cooperação confiável. Isso explica a antipatia generalizada em relação aos ateus em sociedades com maiorias religiosas. Ateus são frequentemente vistos como “parasitas” ou “caronas” (free riders), sendo alvo de grande desconfiança, pois, supostamente, não estão sob restrições morais sobrenaturais. Para combater a hipocrisia e o oportunismo para garantir a cooperação, as religiões pró-sociais desenvolveram “Exibições de Aumento de Credibilidade” (CREDs) – comportamentos extravagantes e muitas vezes custosos, como autoflagelação ou rituais rigorosos, que sinalizam o compromisso sincero com a crença.
A obra também aborda a complexa relação entre religião e conflito, destacando que a religião pode tanto fomentar a cooperação quanto a hostilidade intergrupal. Embora a religião raramente seja a causa primária da guerra, ela pode intensificar os conflitos ao criar limites sociais (entre os que podem e não podem ser confiados) e sacralizar valores, tornando-os inegociáveis. No entanto, a participação religiosa e a redefinição de valores sagrados também podem levar à maior tolerância e à redução de conflitos.
Norenzayan também discute a “cooperação sem Deus” em sociedades seculares. Ele argumenta que, em locais como a Escandinávia, instituições seculares robustas (polícia, tribunais, redes de segurança social) assumiram as funções construtoras de comunidade da religião, levando a altos níveis de confiança e cooperação. Por consequência, essas instituições seculares promoveram o declínio da religiosidade e da desconfiança em relação aos ateus. Para ele, portanto, embora a religião tenha uma “vantagem” cognitiva e histórica, em condições apropriadas, o ateísmo e a cooperação secular podem florescer como um “equilíbrio cultural” viável.
Foi o antropólogo evolutivo Joseph Henrich quem propôs a expressão Credibility Enhancing Displays (CREDS). A colaboração entre ele e Ara Norenzayan tornou esse termo muito presente nas obras de ambos e serve de maneira muito eficiente para conectar a tese da constituição psicológica, social e cultural do Ocidente cristão com a tese dos Big Gods. A tese compartilhada por eles indica que algumas particularidades morais, psicológicas e sociais do Ocidente impulsionaram sua expansão. Eles caracterizam esse Ocidente pelo acrônimo WEIRD (Western, Educated, Industrialized, Rich, and Democratic), e é o esforço de compreender essa formação social peculiar que dá sentido ao livro The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous (2020).
A crença em deuses não é apenas um produto de inclinações cognitivas inatas, mas também depende do apoio cultural e das demonstrações de compromisso dos outros. Deuses como Zeus se tornaram mitos, enquanto outros são fervorosamente adorados, dependendo do contexto cultural e da observação de CREDs. Há uma forte correlação entre o tamanho e a complexidade social das sociedades e a prevalência de Grandes Deuses, que são oniscientes, poderosos, moralmente preocupados e intervencionistas.
Dinâmica do curso
O curso será ministrado em formato virtual com encontros quinzenais, sempre às sextas-feiras, das 14:30 às 15h30, através da plataforma Google Meet, com início no dia 15 de agosto e término no dia 10 de outubro de 2025. Após a exposição, os alunos serão convidados a participar por meio de perguntas e comentários.
A carga horária total será de 6 horas.
Serão disponibilizados, com antecedência e em inglês, os 10 capítulos que serão apresentados ao longo das cinco aulas do curso.
Público-alvo
Alunos de graduação e de pós-graduação em Filosofia da UFRRJ e de outras universidades e quaisquer pessoas interessadas na tese dos Grandes Deuses Moralistas.
Objetivos
– Apresentar e debater integralmente a obra Big Gods: How Religion Transformed Cooperation and Conflict (2013), de Ara Norenzayan;
– Oferecer aos participantes um panorama do debate contemporâneo sobre o fenômeno religioso do ponto de vista evolutivo.
Programação (cronograma)
Aula I – 15/08/25, 14h30
Capítulo 1 (Walter): Evolução Religiosa;
Capítulo 2 (Miécimo): Observadores Sobrenaturais.
Aula II – 29/08/25, 14h30
Capítulo 3 (Walter): Pressão vinda de cima;
Capítulo 4 (Miécimo): Nos Grandes Deuses nós confiamos.
Aula III – 12/09/25, 14h30
Capítulo 5 (Walter): Livres-pensadores como Carona;
Capítulo 6 (Miécimo): Crentes de verdade.
Aula IV – 26/09/25, 14h30
Capítulo 7 (Walter): Grandes Deuses para Grandes Grupos;
Capítulo 8 (Miécimo): Os Deuses da Cooperação e da Competição
Aula V – 10/10/25, 14h30
Capítulo 9 (Walter): Da Cooperação Religiosa para o Conflito Religioso;
Capítulo 10 (Miécimo): Cooperação sem Deus
Bibliografia básica
Norenzayan, Ara. Big Gods: How Religion Transformed Cooperation and Conflict. Princeton: Princeton University Press, 2013.
Bibliografia complementar
Atran, S., and Henrich, J. (2010). The evolution of religion: How cognitive byproducts, adaptive learning heuristics, ritual displays, and group competition generate deep commitments to prosocial religions. Biological Theory: Integrating Development, Evolution, and Cognition, 5, 18–30.
Atran, S., and Norenzayan, A. (2004). Religion’s evolutionary landscape: Counterintuition, commitment, compassion, communion. Behavioral and Brain Sciences, 27, 713–770.
Axelrod, R. (1984). The Evolution of Cooperation. Cambridge, MA: Basic Books.
Bellah, R. (2011). Religion in Human Evolution: From the Paleolithic to the Axial Age. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Boyer, P. (1994). The Naturalness of Religious Ideas: A Cognitive Theory of Religion. Berkeley: University of California Press.
———. (2001). Religion Explained. New York: Basic Books.
Dunbar, R.I.M. (2003). The social brain: Mind, language, and society in evolutionary perspective. Annual Review of Anthropology, 32, 163–181.
Gervais, W. M., and Norenzayan, A. (2012a). Analytic thinking promotes religious disbelief. Science, 336, 493–496.
Haidt, J. (2012). The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. New York: Pantheon Books.
Henrich, J. (2009). The evolution of costly displays, cooperation and religion: Credibility enhancing displays and their implications for cultural evolution. Evolution and Human Behavior, 30(4), 244–260.
Henrich, J., Heine, S. J., and Norenzayan, A. (2010). The weirdest people in the world? Behavioral and Brain Sciences, 33(2–3), 61–83.
Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.
Sperber, D. (1996). Explaining Culture: A Naturalistic Approach. Cambridge, MA: Blackwell.
Wright, R. (2009). The Evolution of God. New York: Little Brown.