Curso de extensão “Exegese sobre a Obra Tempo e Ser para pensar o Acontecimento em Martin Heidegger” – Profa. Dra. Manuela Santos Saadeh (PPGFil-UFRRJ)
Curso de extensão “Exegese sobre a Obra Tempo e Ser para pensar o Acontecimento em Martin Heidegger” – Profa. Dra. Manuela Santos Saadeh (PPGFil-UFRRJ)
Professora responsável: Profa. Dra. Manuela Santos Saadeh (PPGFil-UFRRJ)
Duração: 29 de abril de 2025 a 10 de de junho de 2025
Público-alvo interno: 30 vagas sendo 15 para pessoas dos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia e 15 para todos os alunos da área de Humanas da UFRRJ.
Público-alvo externo: 20 vagas para quaisquer pessoas interessadas na Filosofia de Martin Heidegger.
Inscrições: 17/04/2025 à 26/04/2025

Apresentação do curso
Creio que se quisermos compreender a fenomenologia de Ser e Tempo, precisamos tentar compreender o que Heidegger quer propriamente pensar: o Ser. O Ser é compreendido desde os gregos enquanto presença constante, a entidade do ente, em função do caráter de permanência e disponibilidade da ideia dado à compreensão imediata do ente na lida. O que Heidegger quer indicar com isso é que o Tempo não é uma composição de atualidade, passado e futuro, que são representações ônticas do tempo, mas que o tempo se constitui pelo caráter de decorrência, isto é, de constância de ocorrência de um não-mais para um ainda–não.
O Tempo é aqui determinado pelo Ser enquanto presença e o Ser é determinado pelo tempo enquanto ocorrência. O Ser é devir, não o devir de algo, mas de si mesmo. Ser é abertura (compreensão) e Tempo é ampliação enquanto o movimento da abertura. A abertura em si já é uma ampliação. Ocorrência significa aqui: facultar, pois nada ocorre que não seja facultado. Daí Heidegger trazer a problemática do “dar” na definição do Ser: o Ser dá-se. O dar-se é o próprio ocorrer, e neste ocorrer temporal na compreensão é facultada a presença (enquanto acontecimento ou enquanto entidade do ente). O dar que atém Ser e tempo é o possível, o caráter do devir. O devir é um facultar de ocorrência, pois se não houvesse uma doação não se poderia falar em devir. Devir é tornar-se, isto é, é um dar. E o que o devir dá? O ente concreto (significação imediata) e o pensamento intencional. O dar dá o ente e dá a compreensão, ou seja: o dar dá precisamente o (des)ocultar, que é a compreensão, enquanto a possibilidade do ente aparecer. O caráter da ocorrência é, portanto, o de facultar presença [Anwesenlassen] (à compreensão): possibilitação de presença. Só há ente presente porque há devir, movimento temporal da compreensão, isto é, porque há concessão, possibilitação: Ser, que é o Nada de entidade, o Nada de forma universal-atemporal (Metafísica).
Neste curso, tentaremos compreender a questão ontológica para além do pressuposto metafísico que, de Platão a Nietzsche, vem determinando tacitamente os fundamentos da ontologia.
*
O curso será ministrado em formato virtual com um encontro semanal, sempre às terças-feiras das 17 às 18:30hrs, através da plataforma Microsoft Teams. Estão previstos sete encontros conduzidos pela professora responsável, com início no dia 29 de abril e término no dia 10 de junho de 2025. A carga horária total será de 20h.
Dinâmica do curso
O curso será ministrado em formato virtual. A exposição do tema pela professora responsável terá duração de 70 minutos. Após, os alunos serão convidados a participar por meio de perguntas e comentários. Serão disponibilizados com antecedência os textos que serão estudados em cada aula.
Público-alvo
Alunos de graduação e de pós-graduação em filosofia da UFRRJ, bem como alunos de graduação e de pós-graduação de outras universidades e quaisquer pessoas interessadas em Filosofia contemporânea, Martin Heidegger, Metafísica e História da Filosofia.
Objetivos
O objetivo do curso é trabalhar os conceitos mais fundamentais em Ser e Tempo e da estrutura da compreensão temporal do Ser, trabalhando os conceitos existenciais liberados pela analítica da compreensão do Ser pensada por Heidegger como o Dasein (ser-o-aí) a partir do fenômeno ser-no-mundo, e para que possamos transcender propriamente até as estruturas mais elementares do Ser deste ente, para que a possibilidade de compreensão da estrutura do ente que nós mesmos somos se torne visível. Heidegger, na conferência Tempo e Ser, nos diz que a história do Ser tem seu fim na instauração do Acontecimento [das Ereignis]. Mas o desaparecer do Ser é por respeito à abordagem do Ser enquanto fundamento do ente, enquanto Ser metafísico, a entidade do ente. É nesse sentido que, ao pensar o Acontecimento, o Ser desaparece enquanto fundamento.
Resumo
Quando a questão do Ser se torna a questão do Acontecimento, se torna a questão que visa a ocultação enquanto ocultação, e não mais da ocultação em favor do claro, da entidade (Metafísica), ἀ-λήθεια, isto é, do desencobrimento, que não é, e necessariamente não poderia ser visto enquanto ocultação. “À diferença do ordinário, dá-se não designa, porém, o ser disponível daquilo que há [Was es gibt], mas justamente como algo indisponível, aquilo que se aproxima como algo estranho, o demoníaco” (HEIDEGGER, 1996, p. 286s).
Nos enganamos se pensamos que o pensamento de Ser e Tempo tinha sido resolvido; Ser e Tempo instaurou o que instaurou enquanto inauguração de um percurso, como também, a “fase pré” Ser e Tempo se instaurou como percurso necessário para chegar a Ser e Tempo, e deste para chegar ao Acontecimento. Ser e Tempo é um marco no percurso do pensamento ocidental, assim como a questão da πρᾶξις aristotélica e a da história do Ser são marcos no percurso da questão do Ser. Ser e Tempo não é um tratado estanque considerado insuficiente por respeito à fase posterior do Acontecimento. Penso que Heidegger reporta (principalmente) o pensamento aristotélico da facticidade a Ser e Tempo e este ao Acontecimento como uma instituição de afundamento, não-subsistente e cada vez mais originária, da questão do Ser enquanto Ser. A questão não é a preparação de um fundamento metafísico mais originário para o ente; o problema se torna o deslocamento da questão para sua fixação em outro lugar.
Programação (cronograma)
Aula I (29/04/25) – Introdução à estrutura temporal da compreensão do Ser enquanto ser-no-mundo na primeira parte da obra Ser e Tempo.
Aula II (06/05/25) – Continuar explanando acerca da estrutura da compreensão pormenorizada em Ser e Tempo enquanto possibilidade ontológica da linguagem e da História. Começar a pensar a intramundaneidade do Ser e da verdade, portanto, sua finitude enquanto Mundo de sentido em oposição à universalidade e atemporalidade do Ser metafísico.
Aula III (13/05/25) – Problematizar como Heidegger pensa a lida do Dasein com o ente que tem a forma do seu Ser (alteridade) e com os outros entes que não a tem para começar a compreender a temporalidade da compreensão.
Aula IV (20/05/25) – Apresentação do problema da não-subsistência do Ser do Dasein em oposição ao Ser do homem enquanto Sujeito metafísico e subsistente de conhecimento e vontade. Apresentação dos problemas fundamentais da segunda parte de Ser e Tempo, quais sejam: A Morte, A Deliberação, o débito, e a estrutura não-subsistente do Ser do Dasein.
Aula V (27/05/25) – Pensar a temporalidade do Ser para o sentido do Acontecimento.
Aula VI (03/06/25) – Continuar a explanação da aula V.
Aula VII (10/06/25) – Revisar todo o curso visando mostrar a temporalidade da compreensão humana, a sua pretensão implícita de uma verdade (Ser) atemporal e universal ao longo de 2500 anos nas mais diversas figuras ontológico-metafísicas, isto é, enquanto pressupostos atemporal e universal para a verdade. Evidenciar a contraposição radical de Heidegger a tal universalidade e atemporalidade para a verdade, contra a Metafísica e instaurar o pensamento do Acontecimento.
Bibliografia sugerida
HEIDEGGER, M. A Essência da Liberdade Humana: Introdução à Filosofia. Tradução de Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Editora Viaverita, 2012a.
______________ . As Questões Fundamentais da Filosofia. Tradução de Marco Antônio Casanova. São Paulo: Ed. Martin Fontes, 2017.
____________ . Conferências e Escritos Filosóficos. Tradução de Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1996. (Col. Os Pensadores).
____________ . Heráclito: a origem do pensamento ocidental: lógica: a doutrina heraclítica do logos. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback, Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998.
____________ . Ensaios e Conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia de Sá Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2002a. ______________ . Interpretações Fenomenológicas sobre Aristóteles: Introdução à pesquisa fenomenológica. Tradução de Enio Paulo Gianchini. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2011.
______________ . Introdução à Filosofia. Tradução de Marco Antônio Casanova. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2009.
_____________ . Introdução à Metafísica. Tradução de Mário Matos e Bernhard Sylla. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.
______________ . Meditação. Tradução de Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2010.
______________ . Nietzsche. Volume II. Tradução de Marco Antonio Casanova. Rio de janeiro: Forense Universitária, 2007.
______________ . O Princípio do Fundamento. Tradução de Jorge Telles Menezes. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
______________ . Os Conceitos Fundamentais da Metafísica: Mundo, Finitude, Solidão. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006a.
______________ . Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia. Tradução de Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012b.
_______________ . Ser e Tempo. Tradução de Fausto Castilho. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.
______________. Schelling´s Treatise “On the Essence of Human Freedom”. Trad: Joan Stambaugh, Londres, Inglaterra: Ohio University Press, 1985