PPGGEO-UFRRJ

Programa de Pós-Graduação em Geografia [Mestrado]

Linhas de Pesquisa

Linha 1: Espaço e Política

A Geografia √© um campo de conhecimento que j√° nasce com preocupa√ß√Ķes pol√≠ticas. Quer seja na formula√ß√£o de uma determinada imagem euroc√™ntrica de mundo no √Ęmbito da expans√£o mar√≠timo-comercial a partir do s√©culo XV, quer no tocante √† delimita√ß√£o das fronteiras territoriais dos Estados Nacionais nos s√©culos XIX e XX, pensar a dimens√£o espacial do mundo √© pensar politicamente.
Nesse sentido, a linha de pesquisa Espa√ßo e Pol√≠tica pretende aprofundar a rica tradi√ß√£o geogr√°fica dos estudos sobre pol√≠tica, seja no que se refere aos ramos Geopol√≠tica e Geografia Pol√≠tica, seja no que tange √† constitui√ß√£o pol√≠tica presente nos estudos sobre urbaniza√ß√£o, capitalismo e meio ambiente, por exemplo. Em nossos dias, quando a efetiva√ß√£o de uma hist√≥ria mundial (Weltgeschichte) espalha-se pelos quatro cantos do planeta por√©m de forma nitidamente desigual, √© preciso explicar tal fen√īmeno n√£o apenas sob a √≥tica econ√īmica, mas √† luz da pol√≠tica ‚Äē entendida aqui, em termos geogr√°ficos, como as disputas territoriais lato sensu travadas pelos mais diversos grupos sociais.
Assim sendo, diferentemente do que foi proclamado nos anos oitenta e noventa, quando alguns apontaram o fim da regi√£o, do territ√≥rio e mesmo da geografia em virtude da expans√£o global dos transportes e das telecomunica√ß√Ķes, o espa√ßo vem assumindo centralidade cada vez mais evidente no entendimento de nosso tempo. Fen√īmenos como a quest√£o ambiental e o desenvolvimento sustent√°vel, a reestrutura√ß√£o industrial, a urbaniza√ß√£o contempor√Ęnea e a circula√ß√£o de pessoas, mercadorias e informa√ß√Ķes ‚Äē apenas para citar alguns ‚Äē valorizam o espa√ßo em seus m√ļltiplos aspectos e nas mais variadas escalas. No ano de 2013, as manifesta√ß√Ķes urbanas no Brasil enfatizaram a necessidade de mobilidade urbana como elemento indissoci√°vel da realiza√ß√£o e do alargamento da democracia (RIBEIRO, 2013; BOTELHO, 2013; OLIVEIRA, 2013). Mais recentemente, no ano de 2014 os conflitos envolvendo R√ļssia, Ucr√Ęnia e Crim√©ia ‚Äē cujas consequ√™ncias s√£o incontornavelmente mundiais ‚Äē t√£o somente salientam a dimens√£o nuclear dos territ√≥rios.
Cremos ser preciso recuperar a fortuna da tradi√ß√£o geogr√°fica consagrada √† reflex√£o sobre fronteira, poder, pol√≠tica, territ√≥rio para, costurando as media√ß√Ķes necess√°rias, explorar a realidade brasileira, a Am√©rica Latina e outras escalas em tempos de globaliza√ß√£o. De autores cl√°ssicos como Friedrich Ratzel, Paul Vidal de la Blache, Halford J. Mackinder e Jean Gottman at√© intelectuais mais atuais como Peter Taylor, Gear√≥id O‚ÄôTuathail, John Agnew e Gerry Kearns, a geografia tem sido uma das principais respons√°veis por erigir uma imagem territorial e fronteiri√ßa do mundo (√ď TUATHAIL, DALBY & ROUTLEDGE, 1998).
Al√©m disso, ao atentarmos para a escala da metr√≥pole e para o processo de urbaniza√ß√£o que alterou drasticamente a vida social e nossas rela√ß√Ķes com o espa√ßo e com o tempo no s√©culo XX, encontraremos tamb√©m um di√°logo promissor com a tem√°tica geogr√°fica oriunda do fil√≥sofo franc√™s Henri Lefebvre, cujo pensamento fixou uma determinada forma de pensar o capitalismo tardio tendo como norte a hip√≥tese de que a produ√ß√£o do espa√ßo assumia papel crucial. Existia uma pol√≠tica do e para o espa√ßo simplesmente porque espa√ßo √© pol√≠tica. Aprofundando os esfor√ßos de Lefebvre, autores como Neil Smith, Milton Santos e David Harvey edificaram (tanto em termos emp√≠ricos quanto te√≥ricos) uma d√©marche cr√≠tica para a an√°lise espacial (SMITH, 1988 [1984]; SANTOS, 1996; HARVEY, 2005).
Cabe mencionar também o fértil aporte proveniente do chamado movimento pós-colonial. Interrogando a relação entre produção e lugar do discurso em ciências humanas e a dimensão política inerente a este processo, pensadores como Gayatri C. Spivak, Enrique Dussel, Edgardo Lander, Dipesh Chakrabarty e, sobretudo, Boaventura de Sousa Santos e Walter Mignolo têm lançado mão do conhecimento espacial em suas críticas à constituição eurocêntrica da ciência moderna (SPIVAK, 2010 [1985]; MIGNOLO, 2003 [2000]; LANDER, 2005 [2000]; CHAKRABARTY, 2008 [2000]; SANTOS & MENESES, 2010). Termos como pensamento abissal, pensamento de fronteira, geopolítica do conhecimento e epistemologia territorial trazem consigo as marcas da relação entre espaço e poder inscritas na construção do saber sobre a sociedade. Neste movimento, eles acabam por interrogar a própria epistemologia da geografia.

Dentre seus objetivos, cabe analisar a atualidade do espa√ßo como base e estrutura de rela√ß√Ķes de poder, articulando a estas √ļltimas temas como identidade, cultura, subjetividade e representa√ß√£o. Compreender de que maneira o fen√īmeno da globaliza√ß√£o opera nas escalas mundial, nacional, regional ou urbana, levando em considera√ß√£o a tens√£o existente entre hist√≥rias locais e projetos globais (MIGNOLO, 2003 [2000]). Investigar tamb√©m as diferentes micropol√≠ticas e os conflitos dela resultantes no √Ęmbito do processo de urbaniza√ß√£o completa da sociedade (cf. LEFEBVRE, 1999 [1970]).

 

Linha 2: Din√Ęmicas da Natureza e Quest√Ķes Ambientais

As pesquisas na √°rea Din√Ęmicas da Natureza e Quest√Ķes Ambientais assumem papel primordial para a melhor compreens√£o dos problemas suscitados pela a√ß√£o antr√≥pica nos diversos ambientes de nosso planeta. Diante dessa realidade, constata-se, desde meados do s√©culo XX, um aumento progressivo da preocupa√ß√£o com a conserva√ß√£o e a degrada√ß√£o ambiental, que √© fun√ß√£o n√£o apenas do real agravamento dos problemas ambientais, mas tamb√©m da sua maior percep√ß√£o provocada pelo crescimento populacional, pela sobre-explora√ß√£o dos recursos naturais e pela expans√£o urbana e da agroind√ļstria, que levaram ao aumento de riscos potenciais e danos efetivos associados √† desastres naturais e/ou diminui√ß√£o da qualidade ambiental em diversos contextos. Surgem, assim, novas inquieta√ß√Ķes diante das v√°rias incertezas sobre o futuro do nosso planeta, incluindo os cen√°rios de uma poss√≠vel mudan√ßa clim√°tica, de diminui√ß√£o da biodiversidade e, mesmo, danos ambientais tidos como irrevers√≠veis. Tais inseguran√ßas s√£o acompanhadas por esfor√ßos que visam interpretar e elaborar metodologias de an√°lise das din√Ęmicas da natureza e da qualidade ambiental, assim como estabelecer estrat√©gias para preserva√ß√£o e conserva√ß√£o do meio ambiente.
De modo geral, √© para a sociedade que se produz conhecimento, especialmente em um dom√≠nio de evidente proximidade do cotidiano dos cidad√£os. No entanto, nem sempre o campo ambiental, apesar de sua not√≥ria contribui√ß√£o social, recebe reconhecimento imediato e expl√≠cito por parte daqueles que dele usufruem (BERBERT, 2007). Independente disso, atualmente, muitas pesquisas geomorfol√≥gicas voltam-se para a melhor compreens√£o dos processos de evolu√ß√£o das encostas e de sua rela√ß√£o com os processos que ocorrem nas bacias hidrogr√°ficas, ofertando suporte para identifica√ß√£o de √°reas mais ou menos suscept√≠veis a movimentos de massa e a inunda√ß√Ķes. Diante das recorrentes cat√°strofes s√≥cio-ambientais, com inequ√≠vocos preju√≠zos de toda sorte, tais pesquisas assumem cada vez mais import√Ęncia estrat√©gica para os √≥rg√£os p√ļblicos.
Os estudos da √°rea de climatologia, por exemplo, tamb√©m v√™m adquirindo grande relev√Ęncia por englobar a influ√™ncia do homem na din√Ęmica atmosf√©rica, apontando para problemas como a forma√ß√£o de ilhas de calor nas cidades e a polui√ß√£o do ar. Tamb√©m merecem destaque os estudos ambientais visando a compreens√£o dos impactos ambientais decorrentes de atividades humanas diversas, assim como a avalia√ß√£o das respostas em termos de gest√£o ambiental. Ressaltam-se ainda os estudos voltados √† restaura√ß√£o de √°reas degradadas, assim como √† an√°lise de conflitos ambientais.
Considerando-se especialmente, a realidade da Baixada Fluminense, embora n√£o restrita a ela, por se tratar de uma √°rea carente em estudos sobre a sua realidade, o desenvolvimento da proposta da presente linha de pesquisa permitir√° o aprimoramento e a realiza√ß√£o de estudos fundamentais para o conhecimento desta realidade, bem como um retorno fundamental para a comunidade do entorno da Universidade. Observa-se um contexto de intenso uso e ocupa√ß√£o da √°rea representada por parte da Regi√£o Metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, que apresenta um expressivo desenvolvimento urbano-industrial e contingente populacional distribu√≠do de forma n√£o-planejada, desordenada e em √°reas com morfologia acidentada que evidenciam numerosas situa√ß√Ķes de risco geol√≥gico-geomorfol√≥gico. Al√©m disso, a exist√™ncia de diversas Unidades de Conserva√ß√£o, significativos remanescentes de vegeta√ß√£o de Mata Atl√Ęntica e os impactos ambientais associados aos conflitos de uso do solo ressaltam a necessidade de realiza√ß√£o de pesquisas nessas tem√°ticas, assim como a interlocu√ß√£o com as outras linhas de pesquisa para discuss√£o de temas como vulnerabilidade s√≥cio-ambiental e educa√ß√£o ambiental, conflitos s√≥cio-pol√≠ticos e desenvolvimento sustent√°vel ‚Äē tendo como pressuposto de reflex√£o, sobretudo, a profunda unidade sociedade-natureza.
Vale destacar que, nas √ļltimas d√©cadas, com o advento de novas tecnologias ‚Äē sensoriamento remoto, t√©cnicas de processamento digital de imagens e de posicionamento global por sat√©lite, t√©cnicas de representa√ß√£o e modelagem espacial, uso de recursos geotecnol√≥gicos voltados ao planejamento e √† gest√£o ambiental, m√©todos de data√ß√£o e formas de amostragem e coleta de materiais diversos ‚Äē, surgem novos desafios para os pesquisadores. Conforme grifa Aziz Ab‚ÄôSaber (AB‚ÄôSABER, 2009), na medida que os avan√ßos tecnol√≥gicos oferecem documenta√ß√£o mais qualificada para o entendimento da compartimenta√ß√£o e das formas do relevo, da estrutura superficial da paisagem e da fisiologia dos suportes ecol√≥gicos em diferentes setores da crosta do planeta, muito maiores s√£o as responsabilidades dos pesquisadores.

Dentre seus objetivos, a linha de pesquisa Din√Ęmicas da natureza e quest√Ķes ambientais visa fortalecer os estudos sobre o atual estado dos sistemas ambientais, caracterizando-os em termos s√≥cio-ecol√≥gicos e levando em considera√ß√£o os conflitos ambientais t√≠picos de uma organiza√ß√£o social que transformou a natureza em mercadoria. Ensejamos qualificar profissionais capazes de lidar com tal cen√°rio.

 

Linha 3: Processos Formativos, Pr√°tica e Ensino de Geografia

Seguindo tradi√ß√£o estabelecida ao longo dos anos, os debates sobre ensino de geografia fazem parte da forma√ß√£o do ge√≥grafo. Sabe-se da relev√Ęncia assumida pelo ensino escolar na dissemina√ß√£o e na reprodu√ß√£o do conhecimento geogr√°fico. Ao mesmo tempo, as transforma√ß√Ķes t√©cnicas, sociais e culturais afetaram profundamente o ensino de geografia ‚Äē o que, no entanto, apenas refor√ßou seu lugar no concerto das demais disciplinas escolares ‚Äē, obrigando docentes e discentes a uma reorienta√ß√£o geral em termos epistemol√≥gicos e pedag√≥gicos. Em s√≠ntese, a forma√ß√£o em geografia vem sendo amplamente retrabalhada √† luz das demandas t√≠picas do s√©culo XXI (PONTUSCHKA, PAGANELLI & CACETE, 2007; CARLOS, 2003 [1999]).
Entretanto, a despeito da prolifera√ß√£o de cursos de p√≥s-gradua√ß√£o em geografia em nosso pa√≠s, percebe-se a exist√™ncia de uma certa car√™ncia de mestrados com linhas de pesquisa sobre ensino de geografia. Ao mesmo tempo, nota-se grande demanda por esta √°rea de atua√ß√£o. Dentre os seis programas de p√≥s-gradua√ß√£o em geografia oferecidos no Estado do Rio de Janeiro ‚ÄĒ UFRJ, UFF-Niter√≥i, UFF-Campos dos Goytacazes, UERJ-Maracan√£, UERJ-FFP e PUC-Rio ‚ÄĒ, apenas um, o da UERJ-FFP, possui linha espec√≠fica de ensino de geografia. N√£o raro, aqueles que possuem forma√ß√£o em geografia e que desejam continuar seus estudos procuram os mestrados na √°rea de Educa√ß√£o.
Acreditando na indissociabilidade entre pesquisa e ensino, a presente linha visar√° interrogar a forma√ß√£o do licenciado em geografia, os dilemas de sua pr√°tica profissional em sala de aula, o papel jogado pela geografia no ensino fundamental e m√©dio e, mesmo, quest√Ķes envolvendo o ensino superior em geografia. Sendo o ensino de geografia e o campo da educa√ß√£o de modo geral ricas janelas interpretativas da vida social, a linha de pesquisa em tela pretende contribuir para a expans√£o desse dom√≠nio no Rio de Janeiro.
Dentre os objetivos da linha em tela, visamos Promover investiga√ß√Ķes acerca dos processos de forma√ß√£o do docente em geografia, tendo como prerrogativa o fato de que todo professor √©, em seu cotidiano, um pesquisador. Discutir a produ√ß√£o de material did√°tico em geografia e a rela√ß√£o que docentes e discentes estabelecem com ele, incluindo, neste particular, o impacto das novas tecnologias. Problematizar a composi√ß√£o dos curr√≠culos de geografia e como eles afetam o ensino da mesma.


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