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Área: FILOSOFIA

O programa de pós-graduação em filosofia da UFRRJ visa estruturar um centro de pesquisa e de formação de pesquisadores capazes de discutir e formular problemas filosóficos tanto tradicionais quanto emergentes. Nesse sentido, as pesquisas realizadas na área de concentração “Filosofia” devem ser desenvolvidas através de uma abordagem que utiliza o repertório filosófico no tratamento de problemas gerais da tradição filosófica, sem, porém, pressupor nenhum compromisso com estilos específicos de análise. Entretanto, as investigações serão desenvolvidas a partir de uma compreensão de filosofia como uma forma de discurso baseada na preocupação de clarificar conceitos e dialogar argumentativamente em vista tanto da melhor formulação dos problemas relevantes em cada linha de pesquisa, quanto do melhor encaminhamento para sua solução.

A definição da área de concentração em Filosofia se deveu em grande parte à abrangência do perfil dos membros do Programa. O corpo docente desenvolveu suas teses no Brasil e no exterior em autores e/ou temas relacionados a todos os períodos convencionais da história da filosofia. Com efeito, a classificação proposta para a área implica a possibilidade de existência do diálogo entre as linhas e projetos de pesquisa do grupo como um todo.

Nesse sentido, o corpo docente do programa de pós-graduação deve buscar realizar pesquisas voltadas para uma recolocação de problemas e reexame de concepções e argumentações filosóficas, que podem incluir não apenas análises de caráter lógico-formal, mas também investigações de natureza hermenêutica, ou que levam em consideração os contextos culturais das teorias abordadas.


Linha 1 – Subjetividade, Ética e Política

A temática da subjetividade é o elemento estruturador desta linha de pesquisa, estabelecendo o elo entre as temáticas da ética e da política e caracterizando o modo pelo qual os professores pesquisadores da linha abordam questões éticas e políticas a partir de reflexões sobre o sujeito. Essa transversalidade se dá através dos enfoques abaixo, diretamente vinculados a autores clássicos que problematizam as questões estruturantes desta linha de pesquisa.

Sujeito, relações de poder e possibilidades de liberação

Trata-se da interrogação sobre os processos de construção de subjetividade e sobre a liberdade que nos seria possível, tendo em vista refletir sobre as condições pelas quais seríamos agentes éticos no exercício dessa liberdade.

Uma forma de abordar a conexão entre subjetividade e liberdade é através da análise do estatuto da política e da religião em Baruch Spinoza (1632-1677), através da qual pode-se considerar ética e politicamente a questão da servidão e as possibilidades de liberação.

Já a partir da obra de Arthur Schopenhauer (1788-1860), em uma perspectiva ética e eudemonológica, podem-se investigar quais são nossas possibilidades de ação dada nossa constituição volitiva. A clássica crítica da filosofia de Schopenhauer à ética de Immanuel Kant (1724-1804), que acusa o imperativo categórico kantiano de ser um imperativo hipotético, abre espaço para um profícuo debate ético ao questionar as pretensões de poder da razão humana.

Em sentido semelhante, as investigações histórico-filosóficas de Michel Foucault (1926-1984) sobre a formação do conceito de homem na modernidade são fundamentais para investigar a constituição de saberes e as relações de poder que produzem subjetividade e condicionam nossas ações. Quais são as bases epistemológicas, políticas e éticas que permitiram a instauração dessa nova forma de subjetividade? Como é possível pensar as possibilidades de exercício da liberdade e ação política a partir do que Foucault denominou “cuidado de si”? Ou, então, mais especificamente, problematizando em que condições de possibilidade as práticas de si produzem subjetividades e modos de ser?

Trata-se, portanto, de um redimensionamento teórico do que tradicionalmente se atribui como evidente quando se trata de refletir sobre a escrita da história, as relações de poder e o papel do sujeito no processo de produção de verdade em relação às coisas, aos outros e a si mesmo.

Sujeito, Modernidade, progresso e História

Como se sabe, as investigações de Foucault têm forte inspiração em Friedrich Nietzsche (1844-1900), responsável por instaurar uma desconfiança sistemática em relação a tudo o que até então fora considerado superior, elevado ou de mais alto valor. Assim, a própria cultura moderna – através de suas manifestações de ordem artística, moral, religiosa, política, científica e filosófica – deve ser avaliada de forma crítica, o que rompe frontalmente com o ideal de progresso do pensamento iluminista. Nietzsche leva a Filosofia a interagir com domínios até então estrangeiros ou, pelo menos, fronteiriços, como Filologia, Psicologia, História e Medicina.

Questionar os ideais de progresso, portanto, está diretamente relacionado a repensar a fundamentação da história no que concerne à elucidação do que pode ser chamado, genericamente, de “motor da História”, ou seja, aquilo que é determinante no processo histórico e as suas implicações éticas e políticas. Nesse sentido, são essenciais, por exemplo, tanto a tradição moral e política, sobretudo alemã, caudatária de Kant e Georg W. F. Hegel (1770-1831), quanto as considerações nietzschianas sobre a história e a cultura, vinculadas aos conceitos de sentido histórico e niilismo, e também a articulação dos momentos históricos axiais que ilustram tanto a reflexão do filósofo a respeito da elevação da cultura quanto os momento históricos que comprometem sua filosofia com formas totalitárias de poder.

Política e ética, política e estética

No contexto contemporâneo, herdeiro dessas concepções modernas de sujeito e de suas virtudes, desvirtudes e contradições, tornam-se necessário discutir e analisar de que forma sociedades estruturadas ao redor dos princípios de defesa de liberdades básicas e de tolerância moldam e estabelecem as características do pensamento ético. Trata-se, portanto, de explorar as complexas correlações entre política e ética nas sociedades atuais que aspiram ao ideal de permitir o pluralismo de concepções religiosas, morais e filosóficas de seus cidadãos. Dito de outra forma, no atual contexto democrático com pretensões laicas, secularizadas e de imparcialidade – nos moldes em que é pensado, por exemplo, por John Rawls (1921-2002) – é preciso avaliar de que forma se dá essa reconfiguração do panorama ético a partir do momento em que se evita o recurso a doutrinas filosóficas e religiosas, por natureza controversa entre si, para fundamentar concepções políticas.

Dada essa transversalidade entre as temáticas da subjetividade, da ética e da política, abre-se espaço também para discutir as relações entre arte e política. Através, por exemplo, da busca de pontos em comum entre as estéticas de Theodor Adorno (1903–1969), com sua contraposição à arte engajada, e Jacques Rancière (1940-), com a ideia de passagem de um “regime representativo das artes” para o “regime estético das artes” como uma transformação do discurso hegemônico sobre as artes constituído a partir do Renascimento, é possível pensar e problematizar a atualidade e as desventuras do pensamento crítico para a compreensão das manifestações contemporâneas da arte e de que forma elas podem servir de modelo para transformações políticas.

Docentes:

Danilo Bilate

José Nicolao Julião 

Leandro Pinheiro Chevitarese

Pedro Hussak van Velthen Ramos

Renato Nogueira dos Santos Junior

Walter Valdevino Oliveira Silva


Linha 2 – Ontologia, conhecimento e linguagem

 

Esta Linha visa realizar pesquisas voltadas para a investigação reflexivo-crítica de conceitos, análises, proposições, argumentações e problemas filosóficos, tanto de caráter lógico-formal como investigações histórico-reconstrutivas (a contextualização histórica vista como tão relevante quanto a elucidação de estruturas conceituais). No marco da dupla reorientação crítico-transcendental contemporânea, ocupa-se da questão da validade objetiva/intersubjetiva dos princípios/regras a priori segundo os quais se ergue a pretensão de determinar/constituir a experiência e seus objetos de conhecimento possíveis, envolvendo aspectos característicos relevantes da contingência das formas de vida. Tal reorientação é assumida tanto como reorientação hermenêutica da filosofia (com eixo na noção de reconstrução segundo a historicidade), quanto como investigação do conteúdo pensado ou da linguagem empregada – identificados diversamente, mas sem redução à realidade física ou psíquica (psicologismos e naturalismos vistos como tendências unilaterais) -, enquanto reorientação semântica da filosofia (com eixo no problema da significação).

Pesquisas desta Linha devem dar destaque a questões relacionadas à racionalidade em geral, às filosofias do conhecimento em suas interconexões tanto com teorias ontológicas quanto com teorias lógico-linguísticas (sintático-semânticas e pragmáticas), tais como figuram nos autores mais representativos desse cenário filosófico.

As investigações nela empreendidas devem refletir o entendimento da correlação elucidativa entre categorias lógicas do pensamento e categorias ontológicas da experiência, retomando a tematização da realidade e da verdade reformuladas como questões sobre a objetividade possível entendida em termos de justificação racional ou intersubjetiva das pretensões de validade de conteúdos de sentido de alguma linguagem ou teoria. Integram esta Linha de Pesquisa, em uma atitude de reexame crítico, também as discussões sobre a própria legitimidade de pressupostos da filosofia crítico- transcendental em seus desenvolvimentos contemporâneos, tais como a ininteligibilidade da noção de realidade não dependente da mente, a redução naturalista de fatores determinantes do conhecimento e o pressuposto pluralista acerca da possibilidade de esquemas conceituais alternativos de determinação dos objetos e da experiência possível. Nesse sentido, a Linha se volta para os seguintes temas e problemas, em suas articulações:

(i) ONTOLOGIA. Estudo crítico da estrutura categorial da realidade e do modo de ser de diferentes tipos de entidades de diferentes regiões ontológicas. Nesse âmbito destacam-se as questões concernentes à relação entre fisicalismo, fenomenalismo e intencionalismo, à natureza da existência e das modalidades, ao critério de identidade de particulares, eventos, relações e propriedades, às noções de fato e de proposição. Tal como se mostra no debate sobre realismo e antirrealismo, investigações ontológicas estão necessariamente ligadas a teorias do significado e da verdade, de modo tal que estudos nessa área devem ocupar-se com discussões sobre acepções de significação, teorias alternativas da verdade e compromissos ontológicos de conceitos e teorias.

(ii) CONHECIMENTO. Questões relativas à possibilidade do conhecimento e de respostas ao ceticismo e relativismo. Nesse âmbito destacam-se questões sobre as fontes, tipos e limites do conhecimento e sua definição, sobre a natureza da percepção, sensibilidade, entendimento, memória e testemunho, e sobre acepções adequadas de analiticidade, sinteticidade e aprioridade. O reexame das relações entre pensamento, experiência e linguagem indica a relevância da abordagem da noção de objetividade em conexão com a de intersubjetividade, de modo que estudos nessa área incluem desde a elucidação do fenômeno da consciência de si até a articulação linguístico-proposicional do pensamento e da dependência contextual da justificação.

(iii) LINGUAGEM. Na perspectiva dos desenvolvimentos da filosofia crítico- transcendental, este marco inclui estudos sobre as reorientações da filosofia contemporânea nas chamadas guinada linguística e pragmática, que podem ser entendidas de modos mais restritos (à filosofia analítica) ou de maneiras mais amplas (com inclusão de perspectivas hermenêuticas). Estudos sobre o entendimento do deslocamento do centro da filosofia da natureza ou do sujeito para a linguagem e a significação podem ser abordados tanto com ênfase sintática (lógico-formal), com ênfases semânticas (formais ou informais) ou com ênfases pragmáticas.

(iv) CIÊNCIA. Investigações relativas ou com implicações diretas para as filosofias das ciências, tanto formais (matemática, geometria e lógica) como biológicas e humanidades. Entendemos envolver aqui desde o trabalho mais técnico em lógica e teoria de conjuntos até estudos de natureza conceitual tanto da metodologia de pesquisa quanto da história das ciências. As investigações nessa área devem refletir o entendimento atual da complementaridade entre os estudos de fundamentos lógicos (a lógica da pesquisa científica), de pressupostos ontológicos e da dependência linguística, articulados ao estudo da formação e transformação de conceitos e de teorias científicas.

Docentes:

Affonso Henrique Vieira da Costa

Alessandro Bandeira Duarte

Markos Klemz Guerrero (Colaborador)

Renato Valois Cordeiro

Robinson Guitarrari

 

Linha 3 – Filosofia antiga e recepção

 

A linha de pesquisa em “Filosofia Antiga e Recepção” tem como objeto de estudo os autores clássicos da Filosofia Grega, considerando suas obras de forma integral, adotando como método de abordagem a não secção de suas doutrinas em subáreas temáticas quando estas forem artificialmente propostas. A investigação, assim, visa preferencialmente a compreender os textos antigos sem descurar dos entrecruzamentos que se fizerem necessários entre temas como Metafísica, Política e Conhecimento.

Pelo termo “Recepção”, os pesquisadores da linha entendem o diálogo estabelecido entre os Antigos e os Modernos/Contemporâneos, cientes de que a interpretação do Antigo, não importa a partir de qual viés, será sempre uma interpretação de um estudioso do nosso tempo, que deve, sobretudo, ter consciência da perspectiva que adota – seja ela de tradição helenista, rigorosa na análise do contexto histórico-cultural e linguístico da época, seja ela resultado da leitura de outros filósofos, enriquecida das questões atuais, interessada não em descrever ou dominar os conteúdos legados, mas naquilo que eles contribuíram para o levantamento dos “problemas clássicos” da História da Filosofia – tomando-a como uma escolha refletida.

Ainda por “Recepção”, compreende-se que na História da Filosofia tal diálogo entre Antigos e Modernos/Contemporâneos muitas vezes gerou discussões filosóficas e acadêmicas que os estudiosos de áreas moderna ou contemporânea não seguem sem um relevante apoio dos estudos antigos. Podemos citar como exemplo a leitura que Nietzsche faz dos pré-socráticos, a influência de Platão na formação e doutrinas de Leibniz, a de Aristóteles em várias teorias éticas contemporâneas, dentre muitos outros. De forma que a linha de pesquisa abriga esse perfil de investigador, integral ou parcialmente, quando de fato o tema for apropriado à linha, buscando, assim, suprir uma carência em sua formação e, por consequência, estimular e articular o debate entre as distintas linhas.

Como ferramentas de pesquisa, considera-se fundamental:

(1) o aprendizado da língua grega. Para isso, prevê-se a integração de professores-colaboradores ao programa, que ministrem Língua e Literatura Grega dentro da disciplina de Tópicos Especiais em Filosofia Antiga. A UFRRJ conta, ainda, com uma docente da Língua nos quadros da Faculdade de Letras e os pesquisadores da linha articulam o apoio de parceiros de trabalho, ligados diretamente ou indiretamente aos seus grupos de pesquisa;

(2) o conhecimento das traduções e edições relevantes para o tema em questão. Aliás, essa primeira abordagem do texto antigo é preliminar de qualquer curso ministrado;

(3) e a interlocução com outros gêneros discursivos da Antiguidade, tais como a História, a Poesia e a Retórica, quando o contexto o exigir; o que permitirá uma leitura meticulosa dos diversos problemas tratados por nossos autores e, ao mesmo tempo, compreender as querelas vigentes na época, principalmente no que tange ao discurso-conhecimento, transmissor de verdade(s).

Por fim, os pesquisadores da linha “filosofia antiga e recepção” consideram que o vínculo entre filosofia e realização humana, entre conhecimento e liberdade, que teve lugar inicialmente entre os gregos, deve ser cultivado, porque essa tradição originária da civilização ocidental representa o enfrentamento de problemas, decisões e limites fundamentais da história da filosofia, cujos desdobramentos são ainda decisivos para a concepção de filosofia contemporânea e sua constante reformulação.

Docentes:

Admar Almeida da Costa

Alice Bitencourt Haddad

Cristiane Almeida de Azevedo

Francisco José Dias de Moraes

Marcelo da Costa Maciel (Colaborador)